Basta sairmos às ruas de comércio ou mesmo com grande número de pessoas, e logo nos deparamos com o mais moderno ato da gastronomia ou dos metidos a fãs: a gourmetização.
Esse termo estranho e criado pelo neologismo de certos “tipos” de profissionais tem sido vítima de chacota e está até colocando em cheque o crédito conquistado por anos de trabalho de competentes profissionais de alimentos e bebidas.
Qualquer bolinho ou docinho – por mais delicioso e emocionalmente gostoso que seja – está sendo tratado e desconfigurado, e tendo seus preços absurdamente aumentados, por conta da tal gourmetização.
Uma simples e deliciosa tapioca ou um picolé de limão que consumíamos na infância sentados em algum degrau ou sarjeta se tornou paleta e aí seus preços ficaram absurdos. Vejo descrições a respeito de produtos e iguarias que parecem um poema e até um enredo, como:
“Elaborado delicadamente com frutas colhidas ao amanhecer por virgens ninfas do signo de aquário”. Pode até parecer exagero, mas do jeito que a coisa vai, torresmo será “cútis suína flambada” e cachaça será “néctar destilado e oriundo de cana caiana”.
Penso que essas complicações e tais frescuras são basicamente para esconder a imperícia de quem prepara, pois não precisa fazer fricote, basta fazer direito e cobrar o que vale, desde a matéria prima, a mão de obra, o atendimento, o local e até o charme, mas fricotear desta forma garanto que não agrega nada e, pelo contrário, só faz os consumidores cada vez mais desconfiarem de que a “coisa” seja realmente boa!
Vejam os botecos antigos, por exemplo, que sobreviveram e apreciem a qualidade e a variedade que eles oferecem. Creio que tudo pode ser melhorado e aprimorado, mas com critérios e respeitando a origem e a história da iguaria.
Brillat-Savarin, autor da “Fisiologia do Gosto”, deve estar se revirando no túmulo quando vê pseudos fãs de cozinha se arvorando de chefes e inserindo bobagens em cardápios sob a égide da gourmetização. Tá virando brincadeira!
Semana passada, fui conhecer uma hamburgueria “gourmet” e escolhi um lanche preparado com hambúrguer suíno servido no pão de queijo. Ao chegar o prato, o pão de queijo estava ressecado e o hambúrguer faltando temperos típicos de carne suína. Comi o recheio, paguei a conta e fui embora com mais uma decepção “gourmetizada”.
Vocês já perceberam quantos food trucks metidos a gourmet apareceram nas ruas de cinco anos pra cá e quantos já encerraram as atividades? Será só crise econômica ou não tinham competência pra se estabelecerem e cobrarem o que cobravam? Qual será melhor: a iguaria gourmet do food truck imperito ou o lanche do Tiozinho do cachorro quente?
Sinceramente, creio que fazer bem feito seja obrigação e não um plus ou título, pois já vi gente se achando chefe de cozinha e que não sabe fazer omelete nem fritar linguiça, por estar mais preocupado fazendo fricotes sem sabor e dourando a pílula do que com o efeito do remédio.
A cozinha exige respeito e o consumidor mais ainda, pois sem ele não tem faturamento nem muito menos sobrevivência do negócio. Já chegou a hora de fazermos o básico bem feito, antes de grandes aventuras gastronômicas e que só servem para tirar o brilho de gente que se dedica pra fazer com que o ramo da gastronomia seja cada vez mais admirado e aplaudido, gente que está aí brilhando e ensinando.
Que venham mais e mais jovens dedicados para o nosso ramo, mas com muito pé no chão e respeito pelos que já passaram, abriram os caminhos e fizeram história.
Samuel Bologna
Julho/2018.